Flor de Estufa

Nome: Juliana
Local: Brazil

Quinta-feira, Março 23, 2006

São aproximadamente onze da manhã do dia 23 de março de 2006. A semana passou rápido. A segunda-com-vontade-de-morrer foi outro dia. Estou lendo Cecília Meireles, em busca de uma delicadeza qualquer que movimente o dia (e os pensamentos).

Sinto-me triste e frustrada, numa solidão muito doída, lá no fundo, com gosto de abandono e descaso. Por conta dessa sensação geral de morte, vesti luto e não creio que poderia haver cor mais apropriada para meu estado de espírito nesse dia.

Há uns olhos azuis que passeiam, para lá e para cá, e sorrisos e pensamentos fora de lugar. O que fazer? Parece que chegam no momento mais oportuno, quando a sensação de decepção é tamanha que a sensibilidade abre as portas a novas possibilidades, mais gentis, mais atenciosas, amor-amor.

Mas o que. Eu me conheço muito bem para saber que é preciso estar à beira da morte para aceitar mudanças, o que pode ser tão seguro quanto trágico. As escolhas vêm e vão rápido demais para o risco da inércia. É tudo tão medíocre ao meu redor. E dentro de mim.

O céu está cinzento e choveu um pouco. Chuvinha pouca, sem vontade. Há sol aqui e acolá, o que faz aquele calor desagradável sempre presente. Espero que o dia ajude, e chova tanto quanto aqui dentro. Dessa chuva revolta e perene, de dias a fio sem parar.

No horizonte há um indício, e o vento já parece mais gelado (que solidão).

Quando o assunto é o tempo, não se pode estar mais sozinho.

Uma vontade de conversar! De cafezinho ao fim da tarde, perto do mar, com gosto de chuva. Confidências à meia-voz. Qu’est-ce que si passe? C’est la solitude, toujours là!

Terça-feira, Março 21, 2006

Enquanto dirigia na chuva, o céu acinzentado que me agrada tanto, pensava em quando escrevia por prazer, como uma forma de afugentar a solidão e a mediocridade de uma vida triste.

Confesso que não me sinto capaz de escrever uma linha com a satisfação que tinha antes, com a certeza do sentimento e do valor do dito (ou não-dito).

Sinto saudades de mim. Sinto saudades da sensação de conforto: tudo acabaria bem, de uma forma ou de outra.

Hoje, o que posso mostrar como meu, como belo, como significativo? Retalhos de sensações pinçadas em momentos do cotidiano antecedidos de sabe-se-lá que sentimento. Vidinha burocrática, de escritório, dentro e fora das salas.

Acordei com uma vontade de estar na praia! Deitada numa espreguiçadeira gostosa, sob um dia nublado, o vento gelado com gosto de mar. E um livro. Um livro para esconder as minhas descrenças e medos e tristezas.

A vida toda é isso? Um querer que não se realiza, uma saudade que não se cura.
- Amor, estou com saudades...
- Mas nós nos vimos antes de ontem.
(Silêncio)

O que fazer diante de palavras ditas tão sem calor, cor, beleza?

Houve tempo em que chorava. Chorava copiosamente, numa agonia incapaz de ser controlada por qualquer traço de razão. Hoje, pelo menos na maior parte do tempo, é só uma resignação crua, adulta demais, estúpida demais. A vida não é feijão-com-arroz. É bem mais que isso. Pode ser.

Sonhei com um texto. Uma carta. O início era acerca da feitura de um livro (feitura, de onde tirei isso?), conversava com alguém sobre esse trabalho, em como estava sendo difícil e penoso desenvolvê-lo. O sonho ficou por aí. Acho que até mesmo em sonho não me permito mais esse tipo de devaneio escrito. Achar que posso escrever algo interessante, algo que possa ser lido e apreciado por quem quer que seja (tantos quês em um final de frase) .

O céu está numa rebeldia tremenda. Nuvens, sol, ameaça de chuva – um beija-flor acaba de beber melzinho de flor no canteiro da sacada. O que me resta além de um suspiro?

Talvez estejam todos ocupados demais com as desventuras pessoais. É tão mais bonito sonhar, sofrer e viver a dois! Tão mais completo, tão menos desesperador. Não se convence ninguém disso. Se sabe, se sente, se quer.

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

Chamados do céu... ou do inferno.

Aproximadamente 11:40 de 17 de janeiro de 2006. Está um calor dos diabos apesar do começo de dia chuvoso, com aquele céu lindamente cinza. O despertar foi bem difícil hoje, não por estar deprimida ou triste, mas em virtude de uma preguiça fora do comum, com uma cama que suplicava para que eu não saísse, lençóis especialmente macios.

Acordei com a lembrança dele hoje, e tão logo pude associar qualquer coisa inteligente, mandei uma mensagenzinha adocicada, com avisos de preguiça e saudades.

Dirigir até a faculdade foi tarefa, no mínimo, peculiar. Na altura da reitoria da UFC, nada menos que uma Hilux com um som altíssimo, tocando músicas religiosas. O carro, enfeitado com letras amarelas garrafais: "JESUS ESTÁ ESPERANDO POR VOCÊ. VOCÊ ESTÁ PREPARADO?".

Ora, Jesus não estava esperando, ele estava desesperado, gritando às 7 da manhã em um carro prata enorme que, se não lembrava um anjo celeste, parecia recado enviado diretamente do inferno para tornar a manhã a mais mal humorada possível :P .

Eu, ein.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Breathing...

- Por favor, me tire da água. Estou sufocando.

Assim, lentamente, como uma morte que acontece de dentro para fora. Os olhos pesam, o ar falta, os pés não sabem a que direção ir e as mãos não decidem o que executar. Minha mente é uma grande confusão. A garganta dói. Não há apetite, só mesmo essa sensação de morte.

...

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

Elegia Desesperada de Vinícius, o Poetinha

(...)

É a visão do próprio desespero perdido na própria imobilidade.

Ele traz em si mesmo a maior das doenças
Sobre o seu rosto de pedra os olhos são órbitas brancas
À sua passagem as sensitivas se fecham apavoradas
E as árvores se calam e tremem convulsas de frio.

O próprio bem tem nele a máscara do gelo
E o seu crime é cruel, lúcido e sem paixão
Ele mata a avezinha só porque a viu voando
E queima florestas inteiras para aquecer as mãos.

(...)

O dia-a-dia doentio

Aproximadamente dez da manhã do dia 12 de janeiro de 2006.O dia amanheceu chuvoso, muito fresco, com aquele céu cinza-chumbo tão bonito que há em dias de muita chuva. Acordei cedo, apesar de não ter ativado o despertador. Há vários dias que o despertar tem sido penoso e difícil, assim como o resto do dia, sempre desgastante, sempre insalubre, sempre chato. Estou me sentindo completamente doente.

Já estou quase recuperada da enfermidade física, apesar de estar num início de rinite (comum, acho). O desconforto mental persiste, o desânimo mórbido, a vontade predominante de ficar na cama, com as cortinas fechadas, e o mundo muito bem apartado das minhas sensações.

Por aqui, só um sono muito forte e um desgosto natural pela idéia de atividade do resto do dia. Um dia inteiro pela frente, um dia inteiro para passar. (suspiro)

Meu amor me convidou para jantar num dia absolutamente improvável, de muito trabalho e muito cansaço. Preocupação com o meu estado, conselhos de psiquiatra. Talvez devesse procurar um especialista, para avaliar bem o quadro... Por que me incomodou tanto aquele cuidado? A idéia de fraqueza, de incapacidade, de incompetência. Por que todos conseguem suportar os problemas e eu simplesmente desisto? Amanhã já é sexta, sempre me sinto mais tranqüila nos finais de semana.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Pensando com Klimt

Aproximadamente 22:00 horas do dia 2 de janeiro de 2005. Estou de pijama, deitada na cama, ouvindo uma música do Erik Satie que considero magnífica, especialmente capaz de expressar o que eu sinto quando estou terrivelmente só - como agora. A sensação de estar perdida é presente (e perene), e não sei o que será do ano se o desânimo persistir. Meu espírito como uma tela de Klimt: caótica, linda e alheia ao exterior.

Trata-se de um mundo único e íntimo de cores dançantes, mulheres fadadas à nudez secreta dos sonhos do pintor, nos quais repousa um intenso desejo de fugir para uma realidade mais real e menos óbvia e medíocre.

Caminhei desconsolada pelo Shopping hoje, cerca de uma hora, após o almoço. O vazio, batendo na cabeça, como uma lacuna esperando para ser preechida, essencial ao perfeito funcionamento de tudo. A busca pelo novo objeto de desejo foi em vão, eu simplesmente não me contento mais. Preciso me sentir uma pessoa melhor, mais capaz, mais longe desse universo de futilididades no qual me afoguei para fugir da solidão.

Meu amor vive num mundo que é só dele, e no qual só entro a convite (Répondez S'il vous Plaît). É imensamente triste sonhar só em busca de vontades que só podem ser satisfeitas a dois. Dormimos juntos de sábado para domingo, noite de réveillon, e foi bom. Sempre é, o que me faz pensar que talvez seja aquele para se passar o resto da vida. Acordamos aos poucos, os dois, e houve um momento muito terno em que ele sussurrou um "bom dia" carinhoso ao meu ouvido, entre as primeiras impressões do dia. Acho que precisamos de mais tempo juntos, de convivência cotidiana, de mais momentos de cumplicidade, como aquela leitura na cama (Schoppenhauer Às 20:30 do dia 31 de dezembro de 2005).

Seria redundante dizer que sinto saudade do cheiro? e de estar na cama, deitada, sabendo que bastaria uma chamada terna para que imediatamente pudesse encontrá-lo diante de mim, solícito, ao alcance de um toque?

Sábado, Setembro 24, 2005

Saudades de mim

A noite de hoje, sábado, foi suficiente para trazer de volta lembranças de uma época em que meu espírito vivia entre delírios, sonhos, sensações puras e intensas, por mais irreais que fossem.

Eis que estou agora, num momento vazio, só silêncio e solidão.O desespero costuma vir e permanecer em sua brevidade.Nada de grandes distúrbios.Só uma tristeza muito fria, muito doída, no fundo, à noite, quando a cabeça chega junto do travesseiro e resolve, enfim, descansar.

É estranho pensar que deixei a minha maior companhia em busca de uma companhia tão falha quanto inexistente, e isso nunca me deixou de parecer estúpido.Atitudes que só se tomaria aos 18, 19, ou quase isso.

Acho que seria bom estar em Brasília agora. Brasília?!Sim, naquela esplanada deserta, iluminada, um vento gelado batendo no rosto e toda aquela limpeza de formas ao ar livre.Conversas em voz baixa, pequenas manifestações de cumplicidade, uma paz na alma trazida pela presença do outro.

Enfim, por que não consigo deixar de me sentir à beira?